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07/04/2017

Flexibilizar código de vestimenta no trabalho é tendência e pode aumentar produtividade

Diversos setores tiveram resultados positivos ao abolirem "dress code" convencional. Especialista em gestão confirma tendência, mas faz alerta.

Bermuda, moletom e, por que não, pantufas! Você iria ao trabalho com alguma dessas peças de roupa? Empresas dos mais diversos ramos da região de Campinas (SP) têm adotado um código de vestimenta – também chamado de "dress code" – mais flexível. Segundo especialistas em gestão de pessoas, a flexibilização no "dress code" já é uma tendência no Brasil. Porém, apostar apenas no bom senso dos colaboradores é um risco.

De acordo com o consultor em carreira Rubens Pimentel Neto, há ao menos duas razões motivando a mudança: o aumento na produtividade dos colabores quando se sentem mais confortáveis no ambiente em que trabalham e a entrada das gerações mais jovens no mercado, trazendo novas exigências.

“Até a geração 'X' as pessoas davam muito valor para a formalidade e em se adaptar ao ambiente em que chegam. A nova geração faz o ambiente. Ela exige que o ambiente dê liberdade para ela ser autêntica e isso é excelente”, explica Pimentel.

O designer Diego Rezende conta que nunca trabalhou em um local que exigisse um código de vestimenta formal. Atualmente em uma empresa de desenvolvimento de softwares de gestão em Campinas, ele acredita que utilizar uma roupa confortável e que expresse a forma como se sente naquele dia beneficia não só a produtividade, como também o ambiente.

“A cultura da empresa tem mudado também, você vê cada vez mais gerentes, coordenadores, usando uma roupa mais informal [...] Antigamente, na sexta-feira casual aqui na empresa, o pessoal tirava só a gravata, e hoje não", afirma.

"Tem dia que a gente vê o coordenador passando e o cara tá de bermuda, tá com a camiseta de uma banda que ele gosta, e isso influencia na qualidade do trabalho”, relata Rezende.

Bom senso

A diretora de recursos humanos Christiane Ávila Berlinck foi a responsável por abolir o "dress code" na IBM, multinacional de tecnologia e informática. A campanha ‘No Dress Code’ foi aplicada em todo país, inclusive na filial de Hortolândia (SP). Segundo ela, a mudança busca reforçar a confiança em seus colaboradores, celebrando e reconhecendo a diversidade de cada um.

“Nós confiamos nos funcionários e que eles vão se vestir de acordo com a ocasião em que ele está. Se ele vai a um cliente que é mais formal e que usa gravata, seria conveniente terno e gravata. Se for um cliente mais informal, onde o pessoal trabalha de bermuda, talvez seja conveniente que a gente se adeque ao ambiente do cliente e também use bermuda”, explica a diretora de RH.

Mas, para Pimentel, confiar apenas no bom senso dos colaboradores é um risco. Ele defende que bom senso é um conceito muito amplo, sendo diferente para cada pessoa. Portanto, a saída para manter o voto de confiança é a orientação por parte dos gestores.

“Não definir regras, porque essa nova geração não gosta de trabalhar com regras. Mas, definir algumas diretrizes, alguns cuidados que as pessoas podem ter. Por exemplo, eu posso treinar uma empresa inteira nesse tema de 'dress code' para dar algumas diretrizes, como o que usar e o que não usar”, aconselha Pimentel.

Quebra de barreiras

Além da confiança, a adoção de um código de vestimenta flexível pode ajudar a quebrar barreiras entre superiores e seus encarregados no ambiente de trabalho. É o que defende o coordenador de desenvolvimento Wilson Jorge Tekodon, que já tinha um cargo de liderança quando o "dress code" da empresa de softwares em que trabalha, a Totvs, foi mudado.

“Apesar de ter uma relação muito aberta entre a liderança, os gestores e a equipe, você pode ver de longe quem é diretor, coordenador, líder. E agora não, muita gente tá misturada no meio das pessoas, estamos praticamente iguais", observa Tekodon.

Pantufas

No escritório de Campinas comandado pelo advogado Marcelo Hilkner Altieri, até mesmo as barreiras com os clientes foram quebradas quando o uso de pantufas no ambiente de trabalho foi adotado. A princípio, a prioridade era o conforto das advogadas que, por conta do código de vestimenta mais formal exigido pela profissão, passavam longas horas com sapatos de salto alto.

Segundo Hilkner, a ideia partiu da gerente de relacionamentos do escritório, Cristina Altieri, e foi aceita logo de cara. Dessa forma, quando não estão em audiência, os advogados têm a liberdade de trabalhar com pantufas fornecidas pelo escritório. A ideia foi amplamente aceita inclusive pelos clientes.

“Quando temos um cliente mais antigo, com o qual temos mais intimidade, os atendimentos também são feitos com as pantufas e chegamos a oferecer a eles também, que na maioria das vezes aceitam. Acaba todo mundo de pantufa!”, brinca Hilkner.

Caminho inverso

Apesar das vantagens em abolir ou flexibilizar o "dress code", muitas vezes é necessário fazer o caminho inverso. Conhecida pela diversidade de estilos entre seus colaboradores, após 60 anos uma rede de livrarias brasileira decidiu por implantar um uniforme que ajudasse a identificar os vendedores. Para manter a liberdade de estilos, apenas a camiseta passou a ser obrigatória.

Anos antes o código de vestimenta já havia sido flexibilizado, com a liberação do uso de bermudas pensando prioritariamente no conforto dos colaboradores durante os meses do verão.

“A temperatura do nosso país não permite que a gente se prenda ao dress code de países europeus e americanos, que tem muita tendência a calças. Agora, no Brasil, em Campinas principalmente, que é mais quente que em São Paulo, isso não faz sentido”, argumenta a gerente de recursos humanos da rede Livraria Cultura, Juliana Brandão.

A junção das duas ações trouxe resultados satisfatórios: além de colaboradores mais motivados por poderem vestir roupas confortáveis em todas as estações do ano, a adoção de camisetas impactou positivamente nas vendas, já que os vendedores passaram a ser facilmente identificados pelos clientes.

Mesmo com a implantação do uniforme, preservar a identidade dos colabores foi uma preocupação de Juliana, que buscou ouvir dos próprios vendedores as sugestões de melhorias na camiseta e adequar a peça.

“A gente discute muito aqui na empresa. No primeiro uniforme, que foi um azul claro, eles reclamaram muito que iam perder a identidade. Mas, depois que nós atendemos aos requisitos de malha, cor, que ficou um pouco mais discreto e mais fácil de combinar, aí, nunca mais teve reclamação” explica Juliana.

Questão de diálogo

Rubens Pimentel acredita que o caminho feito pela rede de livrarias é o mais adequado. “Eu sempre apelo pra isso: se eu vou sair da regra, eu sempre preciso dar diretrizes para as pessoas, eu sempre preciso conversar e dialogar com as pessoas”, orienta Pimentel.

E, para que esse diálogo seja eficiente, é necessário pensar em todas as etapas da comunicação, inclusive em como a notícia das novas regras de vestuário será transmitida. No caso da implementação do novo "dress code" na multinacional IBM, a diretora de RH Christiane Berlinck apostou na divulgação através de um vídeo bem-humorado direcionado aos colaboradores.

“Eu acho que a dica mais importante é a forma de comunicar. Se talvez eu tivesse escrito um e-mail dizendo ‘pessoal, a partir de amanhã não temos mais dress code’, eu acho que a repercussão não teria sido tão positiva como foi”, aconselha.

Para o consultor de carreiras, a tendência é de que o mercado seja cada vez mais ‘contaminado’ pelas empresas de tecnologia onde a flexibilização do dress code e outros comportamentos mais liberais são comuns.

“Existem alguns cuidados, mas o mundo vai ficar mais colorido, mais autêntico. Na minha opinião, tá ficando melhor”, conclui Rubens.
 
 
FONTE: G1

 

 
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